Quando nasci, um anjo tortodesses que vivem na sombradisse: Vai, Carlos, ser gauche na vida.Carlos Drummond de Andrade,in Poema de sete faces (ANDRADE, 2003)
Do nascimento à agonia da morte, por toda a vida, o olhar do outro é parte constituinte das subjetividades humanas. Para desenvolver-se de maneira saudável, o bebê humano precisa do olhar da mãe (ou sua substituta). É nesse olhar que ele se vê, é através dele que se integra à comunidade humana, é com esse olhar que o bebê descobre-se também humano.
Na adolescência o olhar do outro é mais importante que tudo. Já não importa tanto o olhar dos pais ou cuidadores, mas dos pares. Os colegas da escola, os amigos de balada. Então, recém saídos da puberdade, os adolescente procuram de todas as maneiras se igualar. Usam as mesmas roupas, falam a mesma gíria, assistem aos mesmos programas de televisão, ouvem as mesas músicas e, em geral, andam em bando, para se imiscuir nessa massa indiferenciada de iguais.
Mas à medida que vão desenvolvendo-se emocionalmente, a diferenciação vai-se tornando vital. Uma excentricidade aqui, um gosto muito especial acolá, a retomada de algo que se admirava nos pais, mas que ficara até então resguardado do olhar ameaçador da gangue de amigos. Em algum momento desse período de transição, a diferenciação é que passa a ser vital.
Já considerado um jovem adulto, esse adolescente crescido precisa ser diferente e parece procurar em tudo e a todo instante uma forma de diferenciar, de ser único e especial. É como se só pudesse existir e respirar sabendo-se único no mundo, diferente de todos: um indivíduo!
Com as responsabilidades da vida adulta e a sedimentação de relações estáveis e emocionalmente seguras, essa necessidade de ser diferente vai, aos poucos, deixando de importar. Não como algo que se nega, mas como algo que se esvai, envelhece e enfraquece até perder o sentido. É quando o sujeito já tem uma imagem de si a tal ponto apropriada, que ser igual ou diferente já não é ponto de pauta.
Mas o olhar do outro continua – e continua para sempre – importando. Basta um momento de insegurança qualquer e pronto. Lá está o terror de ser desaprovado, rechaçado, ridicularizado. Um equivoco, uma palavra dita na hora erra, um desafio que se perde, uma informação que não se entende e lá vem o outro nos mostrar nosso erro e seu significado para a imagem que têm de nós. E então, aquela imagem de nós mesmos, aparentemente tão forte e cristalizada, amolece e se retorce, escorrendo como os relógios de Dalí.
Assim é que o outro nos inunda a qualquer momento, de supetão, sem aviso prévio, dedicando-nos um olhar de admiração, de desprezo, de raiva, de inveja, de gratidão ou de surpresa. Mas o pior de todos, aquele difícil de agüentar, que faz tremer as pernas e reviver a dúvida de saber-se ou não integrante da comunidade humana, é o olhar de estranhamento.
A raiva e o desprezo carregam em si energia destinada ao objeto da raiva e do desprezo. Há olhar para o outro, sentimento, julgamento e condenação. Pode-se reprovar o sujeito com um único olhar, mas esse olhar atinge seu objeto. Ninguém despreza o indiferente, não se tem raiva daquilo que não se vê.
Mas o estranhamento é chocante. “Você é esquisito, você é estranho”. O estranhamento põe em dúvida a condição humana daquele que é chamado esquisito, estranho. Não há mágoa, raiva, não se pode ativar uma defesa qualquer que tenha por estratégia o contra ataque. O estranhamento desarma, porque exclui o sujeito da condição humana que lhe dá condições e forças para lutar, se defender, para recusar ou aceitar a imagem de si que lhe é atirada na cara. O olhar de estranhamento é a bala que provoca a morte social. Não importa a idade ou fase da vida, para morrer assim, basta estar vivo, socialmente vivo.

1 associações livres:
[...]
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
[...]
Poema em linha reta [Álvaro de Campos]
Mais um bom texto para reflexão, Tatiana. Postulo que pode dar-se também o caso em que se esvai, numa fase da vida em que se está ainda socialmente vivo, a importância do olhar de estranhamento do outro. O olhar de retorno passa a ser, então, o de desprezo condescendente. É o ápice, creio, do direito à diferença, que se encontra abrigado no direito à livre manifestação, tudo sob o guarda-chuva do direito à liberdade. Talvez você se lembre de que lhe era negado o direito de dizer "não quero comer isso, não gosto", antes que tivesse experimentado. Dá-se, com o direito à educação, mais ou menos a mesma coisa: para apreender o conceito básico de liberdade, é necessário ter-se educado ainda na infância (aprendido a ler, a escrever, a conhecer o que pensam outros). Desse ponto de vista, a educação não é propriamente um direito da criança, mas um direito do adulto que ela virá a ser. E a intervenção do Estado é potente, nesse caso: é obrigação dos cuidadores prover educação básica, dever que é cobrado através de normas cogentes. Muito juridiquês? :o) O exemplo resolve isso: o Dr. Promotor pode iniciar ação pública para punir quem não provê educação formal a seu filho. Como fica, então, o direito à liberdade, até mesmo o direito de querer outra educação que não a formal, seja a básica ou a acadêmica? Esse é um direito que só poderá ser exercido depois de experimentar o prato.
Sempre cito (sem jamais, ao que me lembre, ter lido esse cumpanhêro do Saramago) Boaventura de Souza Santos, que disse (mais ou menos) isso: lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem, lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize. São, na verdade, direitos conflitantes, como de resto acontece muito. A sociedade e o Estado precisam me garantir ambos. Lembro-me dos tempos em que ficava fascinado com o uniforme despojado de milhões de chineses, de Mao ao camponês inculto. Todos com uma túnica igualzinha, um bonezinho igualzinho. Melhor expressão do igualitarismo não haveria. Mas... E aquele "mas" era atordoante: e meu direito à diferença, à livre expressão? "A gente quer comida, diversão e arte", "a gente quer inteiro e não pela metade". Titãs? Não me lembro.
Falar de estranhamento também implica em falar de tolerância. Mas como tolerar o intolerável? Qual é o limite da livre manifestação, do direito à diferença? Posso admitir, numa sociedade que tem valores como o respeito à vida, que alguém expresse tanto desprezo por ela, que resolva matar indiscriminadamente? E, nessa linha, o terrorismo é válido como expressão política? Ainda que jamais se negue a humanidade presente no terrorista, e que o olhar não seja, então, o de estranhamento, a condenação à morte social também acontece.
É, enfim, um texto muito bom, e para pensar. Para repensar nosso olhar de estranhamento endereçado ao outro.
Bacio.
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