segunda-feira, 23 de abril de 2007

Pelada

A Chico Buarque

Eu não gosto do Chico Buarque. Gosto mesmo é de pagode. E de futebol. Aliás, foi por gostar de futebol que resolvi ouvir uma música do Chico Buarque. Disseram-me que ele adorava jogar bola e que tinha feito uma música chamada Futebol. Fui conferir. Queria ouvir a música que festejava o esporte que é minha paixão e não propriamente conferir o que o Chico Buarque tinha cantado, porque ele, repito, não me interessa.

Não gostei. Não entendi. Sequer consegui prestar atenção na letra até o final. Pode? E aquele ritmo que não tem nada a ver com futebol! Não gostei. Para dizer a verdade, até fiquei meio puta. Porque todo mundo fala do cara como se fosse um gênio. As mulheres ficam babando por ele. Se você está numa rodinha de mulheres e não concorda quando dizem que o cara é um tesão, você é esquisita. Ou sapatão. Se, no meio de homens, diz que não curte o som do cara, pronto, você é burra, e todos olham com ares de superioridade.

Não que eu não esteja acostumada a isso tudo. Eu jogo futebol desde quando era garotinha. Jogava na rua, com a molecada, meu irmão e os amigos dele. Só tinha eu de menina. Eu era a "mulherzinha", "café com leite" e a última a ser escolhida na formação dos times. Mas eles me deixavam jogar. E me davam porrada quando eu jogava bem. E tudo isso foi ótimo porque eu aprendi a jogar como jogam os garotos e me tornei muito boa nisso. Mas a verdade é que, entre os meninos, como vim a descobrir depois, jogar bem não basta para que a garota seja tratada com igualdade. E, para as garotas que olham da arquibancada, mulher jogando bola no meio de homem é sempre meio macha. (A não ser, é claro, que seja um time de modelos semi-nuas que não entendem porra nenhuma de futebol e ficam cacarejando, todas de uma vez só, em volta da bola. Mas isso, para mim, não é futebol!)

Depois, quando entrei na escola, ficava com os meninos, porque era com eles que estava acostumada a ficar. E quando a gente que é menina passa muito tempo com os meninos a gente fica um pouco menino também. E, se isso é verdade, fica também um pouco hostil com as garotas. Sobretudo com as loiras e as que usam roupas ou acessórios cor-de-rosa. Então, ser chamada de esquisita e de sapatão não é realmente nenhuma novidade; mesmo que eu nunca tenha entendido como alguém que fica em meio a garotos e não gosta de garotas pode ser sapatão.

Tampouco é novo o olhar de superioridade que os homens me dirigem. Seja pelo meu jeito um pouco (sim, só um pouco) macho, seja porque, distraída com o futebol, nunca gostei de estudar, eles acabam sempre me olhando com desprezo. Não sei. Talvez seja mesmo porque jogo bem e, nas peladas da vida, deixo no chinelo um bando de marmanjões.

Mesmo assim (que sina!) eu gosto dos homens. E como o encontro com eles é sempre muito difícil, prefiro jogar bola com eles. É ali, no calor do jogo, corpos atléticos e suados, que eles se revelam. Pode-se ver a alma de um homem quando ele joga futebol. (Ah, e que delicia trombar-lhes no corpo, sentir-lhes o cheiro. Dividir uma bola, fugir de um pontapé, acertar uma canela.) Quer saber como o homem trata a mulher? Jogue uma pelada com ele. Não que exista uma fórmula através da qual a gente identifique os tipos; às vezes, nem é preciso jogar com eles, basta vê-los jogando.

Os atletas profissionais, por exemplo. Cada um deles tem seu jeito de comemorar o gol. Há aqueles que, gratos e humildes, correm até os torcedores porque o gol é sempre um presente para eles, como se o jogador fosse apenas um instrumento nas mãos de Deus e seu sucesso, uma dádiva. Há os que, com o rei na barriga, fazem o mesmo gesto, mas com outra intenção: querem ser ovacionados, admirados, queridos pelos torcedores. Há os jogadores que correm para os colegas, porque sabem que o gol foi resultado de um trabalho coletivo. Há ainda aqueles, coitados, que, apesar de nunca fazerem gol, vestem sempre uma camiseta por baixo do uniforme com mensagens aos parentes ou tementes a Deus. São os esperançosos que nunca serão muito famosos, nem muito bons, nem muito interessantes.

E depois há a maneira como eles se relacionam com a bola, com os colegas, com os adversários. Há os que, depois de fazer falta, correm para estender a mão ao jogador caído; mas há também os que, com o mesmo cinismo, erguem as mãos e voltam os olhos para o árbitro clamando pelo veredicto de inocência. Todos os gestos são sinais: a maneira como param no campo, se esticam a camisa ou mexem no cabelo; se amaciam a grama com os pés ou cospem nela; a maneira como seguram a bola e como ouvem (ou deixam de ouvir) o treinador. Em campo, os homens ficam nus.

Claro que essas coisas não se revelam para qualquer um. É preciso estar atento aos sinais, aberto às sensações, sensível aos mínimos detalhes, para captar a alma de um homem enquanto ele joga futebol. Talvez por isso os homens não consigam fazer o mesmo enquanto assistem às mulheres jogando. Estão, geralmente, abertos apenas às sensações corpóreas de cunho sexual. Pobres diabos! Não entendem nada da alma feminina.

Talvez seja por isso que todos os meus poucos namorados tenham sido jogadores de futebol. Pois, se sou incapaz de viver um encontro com eles fora do campo, sei muito bem reconhecer um bom partido dentro dele. Não preciso de músicas, nem poemas, nem romantismos anacrônicos. Sou assim, que se há de fazer? Talvez seja por isso também que esses namoros, terminados que foram em dias de final do Corinthians, nunca tenham sido suficientes para mim. Todas essas questões, no entanto, só agora me ocorrem. Nunca tinha pensado nelas. E, se penso nelas hoje, tenho certeza, é por culpa do Chico Buarque.

Foi há exatamente duas semanas. O treinador marcou um amistoso entre nosso time e o Politheama, o famoso time do compositor. No ônibus, a caminho do Centro Recreativo Vinícius de Moraes, as meninas se desmanchavam em gritinhos histéricos. Bonitas garotas com não mais do que 25 anos completamente derretidas por um sexagenário que, afinal de contas, nem joga tanta bola assim.

Chegamos. Alongamos. Aquecemos. E nada de o cara aparecer. O resto do time adversário (porque, no Politheama, quem não é Chico Buarque é resto), um bando de sorridentes velhinhos com barriga de chope e alguma familiaridade com a bola, tentava se aproximar das meninas. Delas, não de mim, é claro, porque, como já disse, não sou tão menina assim. Elas não se abalavam: devolviam, educadamente, os sorrisos recebidos, mas queriam mesmo era o Chico.

Quando enfim ele chegou, já vestido de azul e verde, esbaforido, desculpando-se com todos pelo atraso, explicando as razões... Quando enfim ele chegou, o que vi foi um homem – sexagenário –, atrasado e esbaforido, que se desculpava com todos e explicava suas razões. O que minhas colegas de time viram eu realmente não sei. Impossível, para mim, definir a profusão de emoções que seus tão jovens olhos deixavam escapar.

Entre gritos e desmaios, flashes e sorrisos, elas se aglomeraram com tamanho ímpeto ao redor daquele senhor que me senti enrubescer de vergonha pelo uniforme compartilhado. O jogador adversário, que mal pôde se aquecer e alongar, com um gesto vago e polido, procurou mobilizar o árbitro em seu favor.

Solícito, o árbitro foi logo pedindo às moças que guardassem suas câmeras e expulsando do campo aqueles que não eram jogadores. As fotos, tietagens e toda sorte de comportamentos regressivos que a presença do compositor causa teriam de ficar para depois do jogo.

E foi então, nos primeiros cinco minutos daquele jogo memorável, que o mundo mudou de cor diante dos meus olhos. Não o vi jogar, pois estava em campo. Não prestei atenção nele, porque o adversário era um time inteiro. Não provoquei, não fugi. Mas tive de dividir uma bola com ele. Com a posse da bola, ele avançava pela direita numa posição perigosa; eu tinha que defender o meu time. Frios, como ainda estávamos, trombamos. Rolei na grama, ele tropeçou. Caímos, nos tocamos, nos olhamos por segundos. Não sei o que houve. Senti o suor de suas mãos em meus braços e, no corpo inteiro, um arrepio impossível. Não vi direito, não sei explicar, nem quero entender. Sei que, por um instante, a tão cobiçada alma feminina daquele homem (que de feminina não tem nada!) estava ali, em cima de mim, diante de mim e, para sempre, dentro de mim.

Não ouvi suas músicas, não decorei suas letras, não cheguei a ler seus livros, mas agora compreendo com clareza a histeria das mulheres e o receio dos homens que, como disse alguém, são sempre cornos em potencial na presença do Chico Buarque. É como eu disse, a gente vê a alma do homem quando joga bola com ele.

10 comentários:

Juliano Machado disse...

Tatiana, etou embasbacado. O conto é muito bom. O texto é muito leve, muito gostoso, absolutamente original. Juro que não vou tecer ainda qualquer comentário, vou ler de novo, gostar mais um pouquinho e venho comentar. Ótimo. Ótimo. Precisamos publica-lo em jornal, em revista, onde quer que seja. Atônito é uma boa palavra.
beijo

Tatiana Machado disse...

Ai ai, Ju. Fiquei emocionada com suas palavras. Juro mesmo. Excessos à parte, ouvir elogios já é bom, vindos de você então, uma emoção só! Obrigada. Fiquei feliz por você ter vindo ao blogue, gostado e conversado. Aguardo seu email com as observações mais técnicas.
Beijo.

marlene disse...

Delícia de texto! Sem mais comentários...rs
beijo

Elka Waideman disse...

Tatiana, linda!
me senti a vontade no meio dos seus posts! seu blogue está claro, bonito. parabéns!
sobre os textos que acabei de ler, babei! fiquei de boca aberta com a escrita. não tinha lido ainda nada produzido por você e confesso que não tinha a mínima noção do que seria a sua escrita, do que ela trataria ou de como ela se realizaria. e simplesmente adorei conhece-la.
creio que será esta associação de psicologia, artes e cotidiano, um belo conjunto.
voltarei, com certeza!
beijos com carinho.
Elka

Tatiana Machado disse...

Olá, Elka.

Que bom que veio ao blogue e sentiu-se à vontade, isso me deixa muito feliz! A idéia é essa!
Pois é, essa história de blogue tem sido interessante justamente porque estamos conhecendo facetas uns dos outros às quais ainda não tínhamos muito acesso. Isso não é ótimo?!
Seja sempre bem vinda aqui!
Beijos.

Elcio Machado disse...

Tatiana,
O problema de vir ao blogue depois dos outros -- só fiquei sabendo do endereço dele depois dos outros -- é que sobra pouco a acrescentar, dizer algo mais do que os outros -- todos esses outros muito queridos também -- já disseram.

Mas, se sempre pode ser diferente, sempre pode também sobrar algo a acrescentar, além de concordar, ponto por ponto, com o que os outros já disseram.

O texto é uma feliz combinação de mim e dos outros. Um olhar em mim e um olhar nos outros, todos nus, sempre, em campo e fora dele -- desde que o olhar esteja atento. É preciso jogar o jogo, é verdade, para ver a alma do outro.

Bem, os outros não mencionaram e, então, acrescento: o título foi muito bem escolhido, embutindo uma ambigüidade interessante. O texto é mesmo de deixar atônito, é uma delícia, a gente se sente realmente à vontade aqui, até para babar. E todos nos sentimos bem acolhidos aqui, para conhecer facetas suas -- e de todos os outros -- às quais não tínhamos muito acesso. Isso é muito bom e muito gostoso.
:o)
Bacio

Tatiana Machado disse...

Ai, Ai, Elcio. Fico eu emocionada de novo. Com suas palavras agora.
Gostei muito das suas observações com relação ao conto, legal que tenha visto tudo isso. Sou obrigada a confessar que é o meu texto favorito, dentre aqueles que escrevi. Só que, infelizmente, faz parte dos "Arroubos", e não das minhas possibilidades de produção cotidiana.
E se todos sentem-se acolhidos aqui isso é maravilhoso! Que continuem vindo, sempre bem vindos!
Bacio

Marisa disse...

Tai, amei!!!
Eu tb quero jogar futebol com o Chico!!!
Mto bom!! Posso divulgar pros meus amigos?? Vou mandar pra todo mundo e falar: "foi minha amiga que escreveu!!"
Bjs, Marisa

Anônimo disse...

Tati, esse texto seu é de tirar o fôlego literalmente... eu que não gosto de futebol tanto assim, me senti super contemplada e compreendi pelo seu olhar sensível e arrasador que uma pelada tem sua graciosidade!Acho até que vou gostar mais de futebol com esse mar de possibilidades dentro das 4 linhas!! Parabéns! Sandra Caldeira

Tatiana Machado disse...

Sandra, querida. Posso confessar algo? Eu também já não gosto muito de futebol, não! Não tenho a menor paciência pra assistir a um jogo! Como quase tudo o que está neste texto é ficcional (a excessão é que, na minha infância eu também joguei bola na rua, como a personagem narradora, e também - nessa época longínqua - era boa!), não esquente com o futebol não. Pense que essas coisas são possíveis de se observar em qualquer situação, basta ter sensibilidade. E isso você tem de sobra!

Obrigada por suas palavras sempre tão carinhosas, é muito bom saber que você anda frequentando este blog e contribuindo com suas opiniões!