Uma história triste.
Ela segue em velocidade constante, não muito alta, não muito baixa. Olha pelo retrovisor central de soslaio e encontra a carinha linda de um bebê. Sorri para ele, mesmo que ele não a veja, e fica satisfeita com o que vê. Pode-se dizer que é uma mulher feliz. Quando volta os olhos para a pista, sua expressão muda. Olhos apertados, testa franzida, o peito fica pequenino. A mancha no asfalto surge em sua frente como cicatriz que não permite o esquecimento.
Há um mês que, quando entrevê o radar fotográfico, não pisa no freio. Lembra-se de que logo virá a mancha. Há um mês que sofre. Há um mês vive, calada, triste, comovida, seu luto.
A mancha já quase não tem espessura. Já quase é só uma mancha. Já quase se aproxima do dia em que nem mancha será. Mas no peito daquela mulher a mancha dói, mancha, marca, amargura.
É bem verdade que, hoje, um mês depois, as dores são volúveis. O bebê marca mais que a imagem do bichinho que se foi. É bem provável que, passado um mês mais, a mancha já não exista, o sofrimento já esteja assimilado, a saudade seja uma lembrança velha de idoso com Alzheimer.
Se houvesse outro caminho a traçar na saída de sua casa, decerto que ela não passaria pela mancha. Desejaria jamais tornar a vê-la. Desejou-o intensamente antes mesmo que a mancha fosse isso o que é hoje, uma mancha, ou quase.
A verdade é que os segundos que antecedem a entrada da mancha no campo de visão da motorista são os mais dolorosos. Imagens, cenas, recordações, da mancha, do gato, do gesto dengoso, do corpo aberto, da face que parece sorrir, da face que não se reconhece, da massa que se sabe ter sido um ser vivo (e querido, e amado), do corpo que já não se assemelha a um corpo. Vem então a dúvida. É sempre assim, todas as vezes que ela tem de passar por ali. Sabe-se feliz, sente-se triste, lembra-se do que foi bom, lembra da imagem feia, feia de qualquer forma, com ou sem dúvida. E o sentimento final é o da dúvida.
No fundo, ela sabe que a dúvida é uma ironia, um gesto desesperado de esperança, uma fantasia acalentadora. Mas o fato é que a face irreconhecível e o coração a lhe saltar pela boca não permitiram um reconhecimento claro, genuíno, desses de seriado policial norte-americano. E essa dúvida, que por vezes parece servir à esperança prometedora, não passa mesmo de uma tortura auto-infligida. Saber a verdade, saber se aquele corpo que corpo já não parecia era o mesmo corpo que tantas vezes acarinhara teria sido o desespero final, terra a cair sobre o caixão, o último suspiro da agonia, o fim.
Mas nada disso aconteceu. Não houve suspiro final, não houve certidão de óbito que desse ao luto a liberdade de trabalhar em paz. Ao invés disso, houve dúvida. Primeiro dúvida, depois medo, depois covardia, depois arrependimento. E por mais que a dúvida persista, o arrependimento não se desfaz. Em seu íntimo ela sabe que a dúvida não justifica a omissão.
É possível que um dia ela se esqueça de sua culpa. É provável que um dia ela já não lembre o nome que um dia lhe foi tão familiar. É quase certo que um dia ela passe pelo radar sem se lembrar de que logo ali houve um dia uma mancha, e antes disso um corpo, e antes disso um ser vivo. É certo que um dia ela não se lembrará. Mas a dor permanece. A dor sempre permanecerá. Pode ser outra dor, pode ser outro bicho, pode ser outro ser vivo, pode ser a dor do câncer, mas a dor permanecerá, a despeito do sorriso do bebê.
Quando ela se aproxima da mancha, hoje, ela sabe que não deveria ter deixado ali o corpo. Ela sabe que deveria tê-lo recolhido, lhe pertencendo ou não. Ela sabe que um ser vivo jamais poderia ter sido deixado assim, no meio da rua, no caminho dos carros, sob a roda dos pneus e dos motoristas indiferentes. Ela sabe, ela não tem dúvidas, de que o corpo de um ser vivo jamais poderia ter sido abandonado assim, jamais poderia ficar assim ao léu, jamais poderia ter sido pisado e repisado até deixar de ter espessura, até deixar de ser corpo, até mancha se tornar.
Enquanto passa pela mancha e dela desvia o pneu e o olhar, já não pode controlar seus pensamentos, já não pode conter os sentimentos. Não sabe se dói mais não ter a certeza da morte ou se o que dói mais é saber-se sempre em dúvida: se aquele era ou não o corpo de seu gatinho, se ele estará ou não vivo, se aquela mancha que um dia foi corpo, que um dia foi massa irreconhecível, que depois se tornou mancha e que amanhã nem isso será, era o seu gato, aquele que lhe sorria, mesmo sem abrir a boca, aquele que lhe beijava, mesmo sem apertar os lábios, aquele que lhe servia de modelo, mesmo sem lhe dizer “xis”. Ela não sabe se é culpa sua, ainda que se sinta culpada, ela não se vê como cruel, ainda que se saiba criminosa. Ela sabe – e essa é a única certeza para a qual não há dúvidas – que foi conivente com o movimento indiferente e irresponsável dos automóveis que transformam corpos em manchas sem espessura.
Mais alguns metros e ela deixa a pista em que ainda se vê a mancha, o bebê esboça um choro e pede por sua atenção, uma moto a ultrapassa displicentemente pela direita e a obriga a reter por alguns instantes o movimento de entrada na rua que a levará ao centro da cidade. Com um quê de irritação, ela espera. E então segue seu caminho.








